domingo, 23 de fevereiro de 2025

CABOCLA JUREMA (1)

 


Jurema, a bela e valente filha de Tupinambá, foi adotada pelo mundo. Encontrada aos pés do arbusto da planta que lhe deu nome, cresceu forte e bela, com a formosura da noite e a firmeza do dia.

Sua coragem a tornou a primeira mulher guerreira da tribo. Sua força e agilidade no manejo das armas e conhecimento da mata se tornaram lendas por todo o continente. Contadores de histórias, ao redor da fogueira, falavam da índia da pena dourada, a Mãe Divina encarnada.

Nada a amedrontava, até que ela encontrou seu maior adversário: o amor. Jurema se apaixonou por Huascar, um caboclo de uma tribo inimiga, os Filhos do Sol, que fora preso em batalha.

Os dias se passaram e o amor cresceu. O pior de amar não é amar sozinho, mas ser amado em retorno, pois exige do amado uma ação em prol do amor.

Pelo olhar, Huascar dizia:

"Oh doce Cabocla, meu doce de cambucá, minha flor cheirosa de alfazema, tem pena deste caboclo. O que te peço é tão pouco, minha linda cabocla Jurema. Tem pena desse sofredor que o mal destino condenou. Me liberta dessa algema, me tira desse dilema, minha linda cabocla Jurema."

Jurema, que resistira ao canto do boto, ao veneno da cascavel e da armadeira, e a centenas de emboscadas, não conseguiu resistir ao amor que fluía de seu peito por aquele guerreiro.

Observando o amado preso, ela viu em seus olhos as mil vidas que viveram juntos, seus filhos, o amor que os unia além da carne. Percebeu que não foi por acaso que ele fora o único caboclo capturado vivo e decidiu libertá-lo, mesmo sabendo que seria expulsa de sua tribo. Na fuga, seu próprio povo a perseguiu. Em meio à chuva de flechas, Jurema caiu, salvando seu amado e recebendo a ponta da morte que era para ele.

Conta a lenda que Huascar voltou à Terra do Sol, fundou um império nas montanhas andinas e ergueu um templo chamado Machu Picchu em homenagem a Jurema, onde só as mulheres da tribo habitariam e aprenderiam a ser guerreiras como a mulher que salvara sua vida.

No lugar onde Jurema caiu, nasceu uma planta robusta e resistente que dá flor o ano inteiro. Seu formato exótico e tom amarelo-alaranjado intenso chamaram a atenção de todas as tribos, pois tudo nela podia ser utilizado, das sementes às flores e ao caule. As flores dessa planta estão sempre viradas para o astro maior, talvez buscando o amado na Terra do Sol. A planta, por isso, ficou conhecida como girassol. Em outras versões, no lugar da morte de Jurema nasce uma planta chamada Jurema-preta ou Calumbi (Mimosa hostilis), da qual é possível preparar um chá popularmente conhecido como vinho da Jurema, preparado à base de raspas de raízes da Mimosa hostilis, sendo essa bebida muito utilizada em cerimônias religiosas indígenas e africanas.

Fonte: https://causosassustadoresdopiaui.wordpress.com/2019/05/17/a-lenda-da-cabocla-jurema/


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